
Economia e Política | 9 de outubro de 2026
O Brasil que Luiz Inácio Lula da Silva (PT) encontrou ao assumir seu terceiro mandato, em janeiro de 2023, apresenta diferenças significativas em relação ao cenário econômico e social registrado em 2026. Indicadores relacionados à dívida pública, às contas governamentais, à situação de rua e às dificuldades enfrentadas pelas empresas revelam desafios que se intensificaram ao longo da atual administração federal.
O comparativo ganha relevância em meio ao debate sobre os resultados da política econômica do governo. Embora o Palácio do Planalto defenda a ampliação dos investimentos sociais, a valorização do salário mínimo e a recuperação de indicadores de emprego e renda, os números fiscais apontam para uma realidade preocupante: o crescimento da dívida pública e a persistência de déficits nas contas do setor público.
A análise de cinco indicadores permite dimensionar parte dessas mudanças, com dados referentes a diferentes períodos entre 2022 e 2026.
População em situação de rua quase dobra
Um dos indicadores mais preocupantes está relacionado ao crescimento do número de pessoas em situação de rua cadastradas no Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico).
Em dezembro de 2022, o sistema registrava aproximadamente 198,7 mil pessoas nessa condição. Em junho de 2026, o número chegou a 392,4 mil, representando crescimento de aproximadamente 97,5%.
O aumento de quase 194 mil registros evidencia a dimensão do desafio social enfrentado pelo Brasil. Entretanto, o crescimento dos cadastros não significa necessariamente que a população efetivamente nessa situação tenha aumentado na mesma proporção, uma vez que a expansão da identificação e do cadastramento também pode influenciar os resultados.
Ainda assim, os números levantam questionamentos sobre a efetividade das políticas públicas de moradia, assistência social, reinserção profissional e enfrentamento da vulnerabilidade extrema.
Dívida pública chega a 82,9% do PIB e preocupa mercadoO endividamento brasileiro também apresentou crescimento expressivo.
Em agosto de 2026, a Dívida Bruta do Governo Geral alcançou 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB), equivalente a aproximadamente R$ 11,1 trilhões, segundo dados divulgados pelo Banco Central.
Para comparação, o indicador estava em aproximadamente 72,9% do PIB no encerramento de 2022, considerando a série posteriormente revisada. A diferença representa cerca de dez pontos percentuais do PIB.
O número de 71,7% para 2022, utilizado em algumas publicações, decorre de um recálculo realizado pela Instituição Fiscal Independente (IFI), do Senado, e não deve ser misturado sem ressalvas com a série do Banco Central.
A expansão da dívida aumenta a preocupação com a capacidade do poder público de financiar suas obrigações sem comprometer o equilíbrio fiscal. A manutenção de juros elevados, o custo de financiamento do Estado e a necessidade de obtenção de recursos para custear despesas são fatores fundamentais para compreender essa trajetória.
O resultado também reforça as cobranças por maior previsibilidade orçamentária e por uma estratégia de estabilização do endividamento público.
Brasil sai de superávit de R$ 126 bilhões para déficit de R$ 55 bilhõesOutro indicador que evidencia a mudança no cenário fiscal é o resultado primário do setor público consolidado, que considera União, estados, municípios e empresas estatais abrangidas pela estatística.
Em 2022, o Brasil encerrou o exercício com superávit primário de aproximadamente R$ 126 bilhões. Isso significa que, naquele ano, as receitas superaram as despesas antes do pagamento dos juros da dívida.
Já em 2025, o resultado foi negativo em R$ 55 bilhões, segundo dados do Banco Central.
A reversão representa uma deterioração nominal de aproximadamente R$ 181 bilhões entre os dois exercícios, embora a comparação também deva considerar inflação, crescimento econômico e despesas ou receitas extraordinárias.
O quadro permanece desafiador em 2026. Nos 12 meses encerrados em agosto, o setor público consolidado acumulou déficit primário de R$ 82,1 bilhões, enquanto as despesas com juros nominais alcançaram R$ 1,182 trilhão no mesmo intervalo.
É importante destacar que o resultado primário não equivale ao déficit total das contas públicas, pois desconsidera os juros. A trajetória de ambos os indicadores, entretanto, é essencial para avaliar a sustentabilidade fiscal brasileira.
Recuperações judiciais atingem recorde e revelam dificuldades das empresasO ambiente empresarial brasileiro também apresentou sinais de pressão durante a atual gestão.
Segundo levantamento da Serasa Experian, o país registrou 833 pedidos de recuperação judicial em 2022. Dois anos depois, em 2024, o número chegou a 2.273 solicitações, o maior patamar da série histórica até aquele momento.
O crescimento foi superior a 170% no período analisado.
A recuperação judicial é um instrumento previsto na legislação brasileira que permite a empresas em dificuldades financeiras buscar a reorganização de suas dívidas e operações, evitando, quando possível, a falência.
Entre os fatores que podem contribuir para esse cenário estão as taxas de juros elevadas, o encarecimento do crédito, o endividamento empresarial e as dificuldades de fluxo de caixa.
O avanço dos pedidos demonstra que, mesmo em períodos de crescimento da atividade econômica, parte significativa do setor produtivo enfrenta dificuldades para manter suas operações financeiramente sustentáveis.
Levantamento aponta 36 medidas de elevação tributária no governo LulaA política tributária é outro ponto central das críticas à administração federal.
Um levantamento publicado pela revista Veja, em 1º de outubro de 2026, identificou 36 medidas efetivas de criação ou aumento de tributos desde o início do terceiro mandato de Lula.
Segundo a publicação, a frequência corresponde, em média, a uma medida de elevação tributária a cada 33 dias.
A relação inclui alterações no Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), tributação de instituições financeiras, importações, combustíveis, compras internacionais e mudanças em benefícios fiscais.
Esse conjunto de medidas vem alimentando críticas de representantes do setor produtivo e de especialistas que defendem uma redução do peso tributário e maior controle das despesas governamentais.
Cabe observar que as 36 medidas não representam necessariamente 36 novos impostos. O levantamento engloba alterações de alíquotas, reonerações e outras iniciativas que ampliaram cobranças existentes.
O governo, por sua vez, sustenta que parte das mudanças procura recompor receitas, corrigir distorções tributárias e distribuir a carga fiscal de maneira mais equilibrada.
Comparativo dos principais indicadoresIndicador
Início do período
Dado posterior
Pessoas em situação de rua no CadÚnico
198,7 mil (2022)
392,4 mil (jun/2026)
Dívida bruta em relação ao PIB
72,9% (2022, série revisada citada)
82,9% (ago/2026)
Resultado primário consolidado
+R$ 126 bi (2022)
-R$ 55 bi (2025)
Pedidos de recuperação judicial
833 (2022)
2.273 (2024)
Medidas de aumento ou criação de tributos
Referência anterior ao mandato
36 desde 2023
Fontes: Banco Central, Serasa Experian, CadÚnico (dados reproduzidos na imprensa), Instituição Fiscal Independente e revista Veja. Os períodos variam conforme a disponibilidade de cada indicador.Mais arrecadação e mais endividamento: qual é o resultado para o contribuinte?
O conjunto de indicadores coloca no centro do debate uma questão fundamental: até que ponto a ampliação da arrecadação e das despesas públicas está se traduzindo em resultados proporcionais para a sociedade?
O aumento da dívida exige atenção porque pode restringir a capacidade de investimento futuro. Os déficits fiscais apontam dificuldades na relação entre receitas e despesas, enquanto o crescimento dos pedidos de recuperação judicial evidencia problemas enfrentados por milhares de empresas.
No campo social, o aumento dos registros de pessoas em situação de rua exige respostas efetivas do poder público.
Isso não significa, entretanto, que todos os indicadores brasileiros tenham piorado. Durante o período também houve avanços em emprego, renda e atividade econômica, resultados utilizados pelo governo para defender sua política econômica. A avaliação completa do desempenho da administração precisa considerar tanto esses avanços quanto os problemas fiscais e sociais.
O Brasil de hoje exige respostas que vão além do discurso políticoA comparação entre 2022 e 2026 revela desafios que não podem ser ignorados. O crescimento do endividamento, a deterioração do resultado primário e as dificuldades enfrentadas por empresas brasileiras colocam a responsabilidade fiscal entre os temas centrais do debate nacional.
Para a população, porém, a discussão não se resume a percentuais do PIB ou resultados de balanços públicos. Seus efeitos podem alcançar o custo do crédito, as oportunidades de emprego, a capacidade de investimento e a qualidade dos serviços oferecidos pelo Estado.
O governo Lula chega à reta final do terceiro mandato diante do desafio de demonstrar que sua estratégia de arrecadação e despesas públicas pode produzir resultados sustentáveis sem ampliar continuamente a pressão sobre as finanças nacionais.
A pergunta que permanece é: se o Estado arrecada mais, por que o endividamento continua crescendo e tantos problemas sociais e empresariais persistem?
Os números não dispensam a análise de suas causas, mas exigem explicações consistentes. Afinal, a qualidade de uma gestão pública deve ser avaliada não apenas por suas promessas ou pelo volume de recursos arrecadados, mas principalmente pelos resultados concretos que entrega à sociedade.
Fontes consultadas: Banco Central do Brasil, Serasa Experian, Instituição Fiscal Independente do Senado Federal, revista Veja e levantamentos sobre o Cadastro Único.



